Monday, 9 March 2009

Noite de ontem

Bati a porta e desci as escadas em direção ao meu carro. Alguns caras na rua pararam imediatamente e me olharam, eu estava caindo em lágrimas. Eu nao queria deixá-lo, eu queria poder ter satisfeito o prazer dele. Mas nao podia, eu nao devia de forma alguma pensar só em mim, pro próprio bem dele. Amor é muito mais do que desejo e paixão, amor é pensar em quem se ama, em querer sempre o bem dessa pessoa. Eu amo ele. Quero o bem dele, e sei que nao sou o que vai fazê-lo muito bem como outros fazem. Talvez ele se engana quando pensa que me ama. Sei muito bem que é só desejo, porque ele nao está pensando em mim e por enquanto nao vai pensar, nao trocou e nao vai trocar o que ele nao tem certeza de como vai ser. Respirei fundo e voltei a prestar a atenção na estrada. Meus pensamentos e lembranças me desligaram tanto que me fizeram desperceber que já tinha entrado no carro, atravessado a cidade e já estava no meio da estrada em direção à minha casa no farol. Só me dei conta disso quando parei de pensar nele e no que eu tinha feito aquela noite, naquele momento ao deixá-lo lá, deitado, me desejando, e quem sabe, chorando por mim. Tudo aconteceu automaticamente, era como se trocar as marchas do carro e prestar atenção no movimento da rua fosse automático, isso me surpreendeu de fato. Desliguei o carro. Meu farol estava lá, minha casa de estrutura um tanto diferente das outras, comprida e listrada de vermelho e branco, com um holofote enorme no topo, que ilumina tudo ao seu redor. Fiquei aí, pensando mais, com vontade de voltar. Suspirei e sai do carro. O céu estava divino, as estrelas preenchiam-no todo e a lua estava realmente radiante. Isso nao me animou nem um pouco, entrei em casa de uma forma que nunca tinha entrado antes, com grosseria, socando a porta contra o feixo e trancando-a bruscamente. Eu sempre tive o maior orgulho da minha casa e agir dessa forma era algo que eu nunca gostaria de fazer. Mas eu fiz. Subi as escadas circulares mais do que depressa, quase correndo, como se precisasse muito do consolo do meu quarto. Era o último cômodo: meu quarto, e as muitas escadas nao me cansavam mais naquela hora. Me joguei na cama e afundei meu rosto no travesseiro, deixando que as lágrimas voltassem a escorrer, demonstrando minha dor. Eu nao consegui dormir. Eu nao parei de pensar no que eu fiz. Eu nao parei de pensar que eu preciso dele.

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